* Esta é uma versão escrita por mim baseada no conto Rumpelstiltskin publicado em 1812 pelos Imãos Grimm.
- Sábio conselheiro, estou muito desanimado, não sei o que fazer... - Dizia o rei sentado de forma desleixada em seu trono.
- Senhor, por que não se casa? Todas as rainhas mais belas das redondezas aceitariam se casar com Vossa Majestade.
- Sim, mas são todas pobres... Não quero me casar com uma rainha pobre...
O sábio ficou pensativo por alguns minutos, “Mas como um rei pobre pode querer se casar com uma rainha rica sem ao menos ser belo?”, indagava a si mesmo, quando foi interrompido por um som estridente vindo da grande porta de madeira.
Rapidamente, o rei ajeitou-se em seu trono observando aquelas pessoas. Na frente, o mensageiro anunciava a chegada dos súditos reais que vieram pagar o tributo mensal.
- Mande-os entrar, um de cada vez. - Ordenou o rei.
Conforme foi pedido, os súditos foram entrando, um de cada vez. A todos o rei perguntava se conhecia alguma moça perfeita no reino, mas sempre acabava insatisfeito com a resposta. Até que chegou a vez de um pobre moleiro.
- Moleiro, vejo que parece um homem sábio, experiente... Gostaria de saber se conhece alguma moça que seja a mais bela do reino. Conhece alguma?
O moleiro ficou parado sem saber o que dizer...
- Acho que não...
- Tem certeza? - Insistiu o rei.
- Pra falar a verdade... Conheço sim. - Disse o moleiro ainda se sentindo um pouco inseguro.
- E quem é essa moça?
- Minha filha. - Um sorriso humilde e esperançoso surgiu discretamente no rosto do homem.
- Sua filha? - O rei inclinou-se um pouco para frente, entusiasmado – E... Me diga uma coisa... Além de bela, o que mais sua filha tem de especial?
- Minha filha sabe fiar muito bem, faz peças maravilhosas. Até tapetes de palha ficam belos como ouro!
- Ouro? - O rei ficou surpreso.
- Sim, ouro.
- Incrível...Traga sua filha até aqui hoje a tarde, quero conhecê-la. - O rei ainda achava que aquilo poderia ser uma farsa, mas não admitia mentiras vindas de seus súditos, se o moleiro não estivesse dizendo a verdade, pagaria por aquilo.
(…)
A jovem estava do lado de fora de sua casa cuidando do seu jardim quando seu pai chegou muito animado.
- Filha! Arrume-se! Hoje você vai conhecer o rei!
A jovem foi até ele e olhou bem no seu rosto.
- Papai, andou bebendo de novo?
- Não, minha filha, é verdade. Coloque sua roupa mais bonita e vamos para o palácio!
Empolgada, a moça tomou um banho e se arrumou. Colocou seu mais belo vestido as únicas joias que tinha, um colar e um anel que ganhara de presente de sua falecida mãe.
(…)
No horário combinado, o moleiro chegou com sua filha ao palácio. Apesar de ainda não saber o que levou o rei a querer conhecê-la, a moça estava muito feliz, nunca tinha imaginado que um dia teria a oportunidade de estar ali.
Quando entraram na sala do trono, fizeram reverência ao rei que se levantou e pegou a mão da jovem para beijá-la. Ele olhou fixamente para o seu rosto por algum tempo, notou que realmente era linda, porém, ainda tinha algo que queria verificar.
- Por favor, sigam-me!
O moleiro e sua filha seguiram o rei e o seu conselheiro pelos corredores do castelo. Impressionada, a moça observava cada detalhe do lugar, as belas pinturas, as grandes janelas de pedra, as tapeçarias finas enfeitando o chão e as paredes, nunca havia visto tantas coisas luxuosas em toda a sua vida.
De repente pararam diante de uma porta. Enquanto o conselheiro a abria, a jovem imaginava um belo quarto limpo e confortável, mas logo notou que não era bem isso que a esperava do outro lado. A sala era pequena e nela só haviam montes de palha e uma roda de fiar.
- Fie toda esta palha em ouro pra mim até amanhecer. Se o fizer, será minha rainha. - Disse o rei.
A jovem arregalou os olhos e olhou para o seu pai.
- Mas eu não gosto de fiar!
O moleiro entrou em pânico, suas pernas começaram a ficar trêmulas, gotas de suor frio escorria pelo seu rosto, precisou apoiar seu corpo contra a porta para manter-se de pé.
- Seu pai me disse que sabia fiar ouro. - Disse o rei, indiferente. - Transforme toda esta palha em ouro até o amanhecer ou os dois morrerão.
A moça ficou paralisada observando o pai ser levado para fora da sala. Logo em seguida, o estalo de um grande cadeado ecoou do lado de fora.
- E agora? O que farei? - Disse a moça com os olhos cheio de lágrimas.
Ela olhou para toda aquela palha e, ainda com esperanças, tentou fiar, mas não deu certo, a palha se despedaçava toda em suas mãos.
Já era quase noite e a jovem chorava desesperada, não fazia ideia de como transformar aquela palha em ouro. Se lamentava, quando, de repente, alguém abriu a porta.
- Olá senhorita! Por que está tão triste? - Um duende peludo, com os olhos pequenos adentrou a sala.
- Quem é você? - Disse a filha do moleiro assustada com a pequena criatura que parou ao seu lado.
- Isso não importa! Diga-me, o que está te deixando tão triste?
- Eu preciso fiar toda esta palha em ouro até amanhã, mas não sei fazer isso.
- Eu posso te ajudar... - Disse o duende.
- Pode?
- Sim, posso. Mas você precisa me dar algo em troca.
A jovem olhou para si mesma em busca de algo de valor e retirou seu colar.
- Te dou este colar em troca.
O duende pegou o colar e o fitou por algum tempo.
- Tudo bem! Eu aceito!
O homenzinho pegou a palha, passou pela roda de fiar e, como num passe de mágica, a palha saiu transformada em ouro. A filha do moleiro ficou encantada observando o trabalho do duende, até que adormeceu...
Na manhã seguinte o rei entrou na sala e se surpreendeu ao ver as bobinas todas cheias de ouro.
- Mas isso é incrível! - O rei começou a andar pela sala observando todo aquele ouro. - Venha comigo! - Disse puxando a jovem pela mão.
A moça achou que finalmente estaria livre daquele martírio, porém, foi levada para outra sala um pouco maior, também cheia de palha.
- Fie toda esta palha em ouro até o amanhecer. Se não fiar, já sabe... - O rei passou o dedo indicador horizontalmente na direção do pescoço insinuando uma decapitação.
Quando a porta de madeira se fechou, a jovem começou a chamar pelo duende. Chamou por horas, mas ele não apareceu, então, pôs-se a chorar novamente.
- Ele não pode me deixar assim... O que farei agora? - Lamentava, quando, de repente, a porta se abriu e lá estava ele novamente.
- O que me dá em troca se eu fizer isto para você? - Indagou o duende.
Com um aperto no coração, a jovem ofereceu o anel de rubi que havia ganhado de sua mãe. O duende fitou o anel e aceitou fazer o trabalho, de manhã toda a palha já estava fiada em ouro.
Ao entrar no aposento, o rei ficou muito feliz, mas sua avareza ainda o dominava. Levou a jovem para uma sala maior, com enormes montes de palha.
- Se fiar toda esta palha em ouro até amanhã de manhã, será minha rainha.
A moça olhou para toda aquela palha e ficou muito nervosa.
- Mas eu não sei se conseguirei fiar tudo isso até amanhã de manhã...
- Se fiar tudo até amanhã de manhã, será minha rainha. Se não, morrerá. - O rei sorriu ironicamente e fechou a porta da sala.
Sem esperanças, a jovem sentou-se e começou a chorar. Como nos outros dias, o duende apareceu para ajudá-la.
- Mas será possível transformar toda esta palha em ouro até amanhã? - Perguntou a filha do moleiro, incrédula.
- O que você me dá em troca? - Perguntou o homenzinho.
- Não tenho nada aqui, mas se eu fiar tudo isto em ouro, o rei me tornará rainha e poderei lhe oferecer muitas riquezas.
- Você se tornará rainha? - O duende não conseguiu se conter, era visível o seu interesse naquele fato.
- Sim.
- E você me daria em troca.... o seu primeiro filho?
A moça olhou para ele com os olhos arregalados sem saber o que responder.
- O seu primeiro filho? - Insistiu ele.
Sem pensar muito nas consequências, ela aceitou.
De manhã, a filha do moleiro se surpreendeu, o brilho das bobinas cheia de ouro reluzia por toda a sala. Quando e rei entrou na sala, ficou encantado e no mesmo dia os dois se casaram.
(…)
O herdeiro do rei estava completando um ano de idade e o homenzinho nunca mais havia retornado. A rainha estava no quarto colocando seu filho para dormir quando, de repente, ouviu um ruído vindo de uma das janelas. Assustada, ela olhou para trás e não viu nada, então, voltou-se para o menino. Ao olhar para o berço, ela se sobressaltou. Do outro lado, de pé, estava o duende.
- É uma criança linda... - Disse ele olhando fixamente para o bebê.
Ao perceber o que ele queria, a rainha logo se adiantou:
- Por favor, não leve meu filho. Posso lhe oferecer muitas riquezas, todo o ouro que você quiser, mas por favor, meu filho não.
- Eu não quero ouro, quero algo mais... Vivo! - O duende tinha um sorriso malicioso no rosto. Naquele dia, a rainha notou que ele sempre teve este sorriso, porém, nunca tinha dado importância, afinal, ele salvou sua vida e a de seu pai.
- Não! Ordeno que você vá embora daqui agora! - A moça pegou seu filho rapidamente, o que o fez acordar e começar a chorar.
- Está certo. Te dou o prazo de três dias para descobrir meu nome. Se não descobrir, a criança é minha.
- É Haroldo? Cassius? Euturiel? Richard?
- Não, não, não... Três dias, ou a criança será minha. - Disse o duende enquanto ia embora.
A rainha entrou em pânico, não fazia ideia de qual poderia ser o nome do duende, então ordenou aos seus mensageiros que fizessem uma lista com os nomes de todas as pessoas do reino.
No segundo dia, o duende voltou ao palácio e a jovem leu toda a lista de nomes para ele.
- Não, não, não... - Dizia enquanto andava de um lado para o outro. - Nenhum desses é o meu nome. Descubra até amanhã ou a criança será minha.
E novamente o duende foi embora. A jovem já não sabia mais o que fazer, deu a descrição do duende para os seus mensageiros e mandou que o procurassem na floresta em volta do castelo.
Na manhã seguinte, os mensageiros voltaram aterrorizados.
- Minha rainha, encontramos vários parecidos com o que você descreveu pela floresta.
- Anotaram os nomes de todos?
- Não foi necessário, encontramos o duende certo. Ele e mais algumas bruxas estavam dançando em volta de uma fogueira comemorando enquanto ele cantava:”Ontem bebi vinho, hoje bebo cerveja, amanhã o sangue real e nada de mal me acontecerá. Que bom ninguém saber que meu nome é Rumpelstiltskin!”
Com os sentimentos perdidos entre terror e felicidade, a rainha aguardou a chegada do duende.
Chegou o final da tarde, e lá estava o homenzinho diante da rainha:
- Vai me dar a criança? - Disse ele andando impacientemente de um lado para o outro.
- Ainda não... Seu nome seria Andarilho Noturno?
- Não.
- Ah... Duende da Floresta?
- Não! - Ele já estava impaciente com toda aquela insistência da jovem. - Dê-me essa criança logo! Nunca vai adivinhar meu nome!
- Por que não, Rumpelstiltskin?
O homenzinho olhou para a jovem, surpreendido:
- Não pode ser! Não pode ser! Maldita! As bruxas da floresta te contaram! Só podem ter sido elas! Traidoras! Rainha Maldita! Isso não vai ficar assim! - Irado, Rumpelstiltskin começou a pular, pulou com tamanha força que sua perna direita se afundou no chão e, ao tentar se soltar, ele puxou tanto que se rasgou ao meio, deixando uma grande poça de sangue no chão.
A rainha correu para a sala do trono, onde o rei brincava tranquilamente com o seu filho e, ainda um pouco assustada, pegou o bebê no colo e o abraçou.
(...)
No dia seguinte, a rainha brincava tranquilamente com o bebê, quando, de repente, o rei entrou na sala muito nervoso:
- Minha rainha! Que bom que te encontrei, por favor, venha aqui! - Disse ele enquanto tirava o filho de seu colo.
A filha do moleiro o seguiu até uma grande sala.
- Entre aí. - Ordenou o rei.
A moça obedeceu, entrou na sala e, ao ver o que era, seu coração se acelerou.
- Todo o nosso ouro desapareceu! Não sei como um ladrão conseguiu levar tudo aquilo. Fie mais! Já sabe, tem até o amanhecer, ou então morrerá.
O rei fechou a porta com incrível frieza, a moça só pôde ouvir o choro de seu filho se afastando pelo corredor.
Novamente, ela sentou-se sobre um monte de palha e começou a chorar, mas naquele dia Rumpelstiltskin não apareceu...
FIM